Nossas decisões são tomadas conscientemente?

Alguns ramos da psicologia utilizam experimentos para observar como as pessoas interpretam e reagem a diversos tipos de estímulos. Desta forma, os observadores podem registrar o comportamento humano e formular explicações plausíveis sobre suas origens em nossas mentes. Estes procedimentos são bastante úteis para testarmos a aplicação de conceitos teóricos em situações práticas, para que assim possamos compreender se determinada teoria é suficientemente adequada para explicar determinado comportamento.

Como exemplo, utilizaremos o conceito de inconsciente. Este termo é utilizado no cotidiano para representar situações em que nós não sabemos o porquê de termos feito, dito ou sentido algo (também podemos usar para nos referirmos a alguém que não está acordado, mas não é esse o ponto aqui). No sentido definido pela corrente psicanalítica da psicologia, o inconsciente se refere à uma instância da mente (uma espécie de setor) que não podemos acessar utilizando a nossa atenção consciente e não sabemos exatamente o que tem lá. Este setor inconsciente supostamente guarda memórias de traumas que vivemos ao longo de nossas vidas, mas que nem sabemos que temos. Nós não sabemos os conteúdos dessas lembranças, mas elas influenciam nossas atitudes e a forma como reagimos emocionalmente. Segundo a teoria, seria possível conseguir acesso ao conteúdo do inconsciente por meio da análise terapêutica, para que assim o paciente tenha mais controle sobre as influências de suas memórias traumáticas e saiba lidar com isso.

Durante muito tempo a psicanálise foi combatida por teorizar sobre um setor da mente que não sabemos onde fica e não sabemos o que tem dentro. Mas atualmente a ciência dispõe de novos recursos para investigar o que se passa nas nossas cabeças (como máquinas de ressonância magnética funcional e tomografia por emissão de pósitrons), e daí vem a neurociência para nos ajudar a compreender esse problema do inconsciente. Será que ele realmente existe?

Como o autor e pesquisador Leonard Mlodinow explica em seu livro “Subliminar – como o inconsciente influencia nossas vidas”, todos os seres humanos são influenciados por estímulos que muitas vezes nem percebem, além de agirem, falarem e reagirem de formas que não são perfeitamente planejadas como muitos imaginam que sejam. Isso favorece a ideia de que nossas motivações não são totalmente racionais (algumas delas não são mais racionais que as de um ornitorrinco). Para ilustrar esse pensamento, tomemos como exemplo este estudo publicado na revista Science: 120 participantes receberam a tarefa de julgar a beleza de mulheres por meio de fotos. Cada participante precisou escolher uma dentre duas opções de fotografias de acordo com suas preferências estéticas. Foram mostrados 12 pares de fotos (totalizando 24), de modo que no final do experimento cada participante havia escolhido 12 mulheres. Após isso, o experimentador entregava ao participante a foto de uma das mulheres escolhidas e pedia para que o mesmo explicasse o porquê da sua escolha. Mas acontece que em alguns casos o experimentador entregava fotos das mulheres que não foram escolhidas pelos participantes, e 75% deles não perceberam isso. Isso rendeu explicações como “Ela é radiante” ou “Acho que ela parece mais simpática que a outra”, mesmo quando se referiam às fotos rejeitadas. Outros modelos deste experimento foram feitos utilizando escolhas de sabor de geleia (66% das pessoas não perceberam a troca), e de chás, como também foi citado por Mlodinow em seu livro.

O que podemos concluir dessas pesquisas é que as pessoas nem sempre tem consciência dos motivos que as levam a tomarem decisões e, portanto, devem existir outros fatores envolvidos em nossos processos mentais de tomada de decisão. Se você está pensando que isso afeta apenas coisas insignificantes como o nosso gosto para geleia, saiba que esse fenômeno se estende inclusive para o campo político. Em um estudo realizado pela universidade de Princeton e  citado no livro “Subliminar”, os cientistas pediram para que os voluntários avaliassem a competência de candidatos reais nas eleições governamentais e do senado nos Estados unidos com base em sua aparência. 72% dos candidatos avaliados como “competentes” por sua aparência no estudo acabaram vencendo as eleições para o Senado, enquanto que 69% venceram as eleições governamentais. Este e outros estudos demonstram como as nossas decisões podem ser influenciadas por informações que nem sabemos que estão sendo processadas pelo nosso cérebro. Neste caso, uma variável que não está ligada de fato à capacidade de exercer cargos políticos foi suficiente para prever com certo nível de precisão os resultados das eleições.

A concepção do inconsciente como um “universo obscuro e cheio de simbolismos” pode, aos poucos, ser substituída por explicações de origem evolutiva. Desta forma, ao invés de interpretar o inconsciente como uma espécie de entidade, podemos vê-lo como um mecanismo cerebral que foi herdado de nossos ancestrais hominídeos por ter demonstrado ser uma ferramenta útil para sua transmissão de genes e sua sobrevivência. Existe utilidade na capacidade do nosso cérebro processar informações sem que saibamos disso conscientemente, pois desta forma poderemos nos concentrar em outros estímulos mais relevantes. O mundo oferece uma quantidade de dados infinitamente maior do que podemos processar, e um cérebro que desse conta de todos esses estímulos seria inviável evolutivamente. Nós não somos uma exceção, e mesmo a nossa porção inconsciente não é capaz de captar todas as informações disponíveis no ambiente. Porém é extremamente útil possuir um mecanismo que gerencie os dados de uma forma que não ocupe a atenção consciente, pois sem isso nossos antepassados sequer conseguiriam fugir de um predador sem antes passar horas processando dados sobre sua aparência, cheiro ou sons que produz. Além disso, precisariam comer dezenas de quilos de comida para suprir a demanda energética desse super cérebro. Desta forma, não fomos moldados pela seleção natural para calcularmos deliberadamente os motivos e consequências de todas as nossas decisões e comportamentos. E isso é uma grande habilidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s