A um aluno

Dedico esse texto a todos os universitários.

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então” (Alice no país das maravilhas,  Lewis Carroll).

Você se esforçou, virou madrugadas, recusou convites de amigos, esqueceu as redes sociais. Mas afinal o que é ser social, quando é ano de vestibular? O que existe é a briga pelo livro de física, química que os professores do cursinho têm para emprestar. Você briga com “unhas e dentes” por eles. Acorda cedo. Dorme tarde. Não existe domingo; nem cinema; nem descanso, porque em algum lugar tem um concorrente que está estudando mais. Precisa estudar mais. Antes não gostava de café, nem de Red Bull, mas agora são essenciais. Enfrentou o ENEM, o vestibular seriado, SISU, cogitou FIES. Nada importa. Preciso passar. TENHO que passar. E você passou. Fica com o sorriso de orelha à orelha, é o orgulho da família. E nesse momento, o céu se abriu e veio uma voz: “Parabéns meu filho, agora tu és um UNIVERSITÁRIO”.

Não dormiu bem na noite passada. Quem conseguiria dormir? Hoje é o primeiro dia de aula. Tudo é novidade. Quem é minha turma? Qual a minha sala? Depois vem a primeira semana de provas, primeira festa, primeira ressaca, primeiro estágio, primeiro seminário. Fica mais horas no campus do que em casa. Esses milhares de quilômetros quadrados, tornara-se seu lar. São tantas coisas para fazer, que não sabe por onde começar. Todos a sua volta só falam sobre a carreira que devia ser só sua. Tem aquele parente, que sempre pergunta quando terminará esse bendito curso. Seus amigos te chamam de desaparecido. Seu pai pergunta qual o salário médio da profissão. Sua mãe com medo do desemprego. O namorado cobrando atenção. O orientador perguntando o tema do TCC. Eu sei, é difícil.

Por isso, peço que tenha um pouco de calma. Inspire, expire, inspire…Estou do seu lado. Te entendo. Em nome disso, proponho encontros periódicos aqui mesmo para conversamos. Os temas, serão do nosso cotidiano. Trocaremos experiências, falaremos das alegrias e tristezas; caídas e vitórias. Eu sou como você. Sou um universitário, somos iguais, compartilhamos os mesmos dramas. Dedico a vocês cada palavra, parágrafo, até as normas da ABNT. Faço isso para que vejam que não estão sozinhos e que não são os únicos a vivenciarem determinada situação. Dedico cada palavra, parágrafo e normas da ABNT a vocês. Por que? Porque nós nos entendemos, somos “farinha do mesmo saco”…porque somos alunos, somos universitários.

Nicole Brito

Por que sentimos raiva?

Vamos discutir sobre a expressão agressiva da raiva. Todos nós já experimentamos esta emoção intensamente em algum momento. Os batimentos cardíacos aumentam, as pupilas dilatam, a temperatura corporal aumenta, ficamos ofegantes, nossos músculos esqueléticos ficam tensos e assumimos uma postura que indica que se aproximar não é uma boa ideia. Não conseguimos pensar direito e muitas vezes acabamos agindo antes de avaliar as consequências dos nossos atos, machucando outras pessoas física ou emocionalmente (ou até a nós mesmos). Ações motivadas pelo sentimento de raiva são descritas há séculos em diversas culturas, e se você está se perguntando se a raiva é um fenômeno global, o psicólogo e pesquisador Paul Ekman responde que sim. Como é possível saber disso? Por acaso ele visitou todas as culturas do mundo para procurar alguma sociedade em que as pessoas não sintam raiva? Quase. Ekman, como uma série de outros pesquisadores, procurou visitar países em todos os continentes para recolher informações sobre as emoções humanas, desde os Estados Unidos e Japão, países com grande desenvolvimento tecnológico de meios de comunicação, até Papua Nova Guiné, um país em que alguns nativos não possuem meios como internet, televisão ou até mesmo telefone. Alguns deles nunca tinham visto câmeras de filmagem [1].

Esta e outras pesquisas levaram os cientistas a corroborar a ideia de que a raiva (entre outras emoções) é um sentimento presente em toda a espécie humana, e que foi herdada de nossos ancestrais hominídeos por ter sido uma ferramenta útil para a sua sobrevivência e consequente reprodução. Ser agressivo provavelmente trouxe alguns benefícios para nossos ancestrais, como conseguir alimento, vencer predadores em combates, conquistar posições de alto status em seus grupos e até a conseguir parceiros para se relacionar [2]. Pense um pouco. Os indivíduos que fugiram de predadores puderam sobreviver e se reproduzir, mas também puderam aqueles que lutaram e mataram a ameaça. Obviamente lutar é uma estratégia mais perigosa do que simplesmente fugir, porém nós herdamos a capacidade de agir das duas formas. Possuímos a habilidade de correr ou de gritar, xingar, esmurrar, chutar e morder se nosso cérebro achar que é necessário. A agressividade está em nosso código genético, que por sua vez é o responsável por todo o aparato anatômico e fisiológico que está envolvido nas reações de raiva e violência.

Então isso quer dizer que estamos predestinados a sermos violentos? Não. Visite um templo budista, acho que não verá muitos homicídios acontecendo. Ou então olhe à sua volta. Não estamos sempre em embates ferozes contra as pessoas com quem convivemos, e podemos criar relações cordiais e confiáveis com nossos semelhantes. Isso demonstra que a agressividade não é apenas determinada geneticamente, e que existem outros fatores ambientais que influenciam seu desenvolvimento.

Um desses fatores é uma espécie de influência social. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Paraná mostra um exemplo de como a agressividade pode ser estimulada por influência de fontes externas como filmes, por exemplo. Foi observado como um filme violento (contendo cenas de abuso físico e psicológico) causou um aumento considerável no comportamento agressivo dos adolescentes participantes do experimento. Este aumento foi percebido por meio da observação dos adolescentes jogando futebol entre si. O grupo de colaboradores que assistiram ao filme violento foi mais agressivo do que o grupo que assistiu um filme não violento. Também foram mais agressivos que o grupo que não assistiu filme algum (grupo controle). [3]

Mas calma, não podemos concluir que assistir filmes do tipo “Duro de matar” vai nos transformar em atiradores violentos. Obviamente precisamos pensar em outras variáveis que favorecem o surgimento da raiva e sua expressão agressiva. Como mostra este artigo publicado na revista eletrônica Cesumar , a violência pode ter sido recompensada desde muito cedo para algumas pessoas, e por isso se perpetuou durante todas as suas vidas. Por exemplo, se uma criança conseguir um brinquedo ao gritar e xingar os pais, este comportamento será reforçado. Se ela conseguir um chocolate ao ameaçar quebrar algo de valor, este comportamento será reforçado. Se ela conseguir qualquer tipo de privilégio ou algo que goste por meio de gritos, ameaças, xingamentos, palavrões e agressões físicas, isso se tornará um hábito para ela, afinal assim ela conseguirá o que quer. Isso pode se tornar um problema grave, pois imagine o que aconteceria se uma criança com certa predisposição genética a agressividade tivesse pais permissivos.

Este ponto é bastante complexo, pois ao mesmo tempo que pais passivos demais podem criar filhos extremamente agressivos, o mesmo pode ocorrer com pais muito rígidos e/ou violentos. Isso quer dizer que a raiva pode ser uma forma de reação para se defender da violência vinda dos familiares, e também pode ser compensadora para a criança quando afasta as pessoas que a agridem. E se algum comportamento é compensador, tende a durar. Se você quer entender mais profundamente como esse mecanismo de reação por meio da raiva funciona, o teórico e pesquisador B.F. Skinner explica isso em seu livro “Ciência e comportamento humano”.

Por fim, pense no quanto é importante que busquemos compreender que fatores permeiam esse grande problema social da violência. Este é um passo necessário para um melhor planejamento de mudanças políticas que de fato reduzam os índices de agressão em nossa sociedade, e possivelmente em todo o mundo. Imagine quantos crimes podem ser evitados, quantas famílias poderiam se sentir seguras nos lugares onde vivem, e no quanto a nossa civilização pode evoluir ao solucionar este enorme problema da agressividade. Isso não quer dizer que não vamos mais sentir raiva, mas que pelo menos podemos aprender a conviver com esta ferramenta herdada de nossos ancestrais.