A um aluno

Dedico esse texto a todos os universitários.

“Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então” (Alice no país das maravilhas,  Lewis Carroll).

Você se esforçou, virou madrugadas, recusou convites de amigos, esqueceu as redes sociais. Mas afinal o que é ser social, quando é ano de vestibular? O que existe é a briga pelo livro de física, química que os professores do cursinho têm para emprestar. Você briga com “unhas e dentes” por eles. Acorda cedo. Dorme tarde. Não existe domingo; nem cinema; nem descanso, porque em algum lugar tem um concorrente que está estudando mais. Precisa estudar mais. Antes não gostava de café, nem de Red Bull, mas agora são essenciais. Enfrentou o ENEM, o vestibular seriado, SISU, cogitou FIES. Nada importa. Preciso passar. TENHO que passar. E você passou. Fica com o sorriso de orelha à orelha, é o orgulho da família. E nesse momento, o céu se abriu e veio uma voz: “Parabéns meu filho, agora tu és um UNIVERSITÁRIO”.

Não dormiu bem na noite passada. Quem conseguiria dormir? Hoje é o primeiro dia de aula. Tudo é novidade. Quem é minha turma? Qual a minha sala? Depois vem a primeira semana de provas, primeira festa, primeira ressaca, primeiro estágio, primeiro seminário. Fica mais horas no campus do que em casa. Esses milhares de quilômetros quadrados, tornara-se seu lar. São tantas coisas para fazer, que não sabe por onde começar. Todos a sua volta só falam sobre a carreira que devia ser só sua. Tem aquele parente, que sempre pergunta quando terminará esse bendito curso. Seus amigos te chamam de desaparecido. Seu pai pergunta qual o salário médio da profissão. Sua mãe com medo do desemprego. O namorado cobrando atenção. O orientador perguntando o tema do TCC. Eu sei, é difícil.

Por isso, peço que tenha um pouco de calma. Inspire, expire, inspire…Estou do seu lado. Te entendo. Em nome disso, proponho encontros periódicos aqui mesmo para conversamos. Os temas, serão do nosso cotidiano. Trocaremos experiências, falaremos das alegrias e tristezas; caídas e vitórias. Eu sou como você. Sou um universitário, somos iguais, compartilhamos os mesmos dramas. Dedico a vocês cada palavra, parágrafo, até as normas da ABNT. Faço isso para que vejam que não estão sozinhos e que não são os únicos a vivenciarem determinada situação. Dedico cada palavra, parágrafo e normas da ABNT a vocês. Por que? Porque nós nos entendemos, somos “farinha do mesmo saco”…porque somos alunos, somos universitários.

Nicole Brito

Paleontologia- Uma viagem ao passado

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Entre os dias 02 e 06 de maio ocorreu o 1º Ciclo de Palestras orquestrado pela equipe Ecoevolucionando. Intitulada como “Paleontologia- Uma viagem ao passado”, o principal objetivo do evento foi arrebatar os estudantes interessados neste campo da biologia expondo as principais áreas e projetos que estão sendo realizados no campo da paleontologia. Abaixo possibilitamos uma breve visão para aqueles que perderam esse fantástico evento:

Dia 02/05: Paleobotânica – Drª. Paula Sucerquia

  • Possui Graduação em Geologia – Universidad EAFIT (2004), Mestrado em Ciências (Área: Paleontologia e Bioestratigrafia) pela Universidade de São Paulo (2007) e Doutorado em Ciências (Área: Geotectônica) pela Universidade de São Paulo (2013). Atua na área de Paleobotânica, principalmente em floras Mesozoicas.
  • Abordou temas relacionados ao estudo da flora fóssil, conceitos e técnicas, principais inferências que podem ser feitas com esses dados.

Dia 03/05: Fosseis de Pernambuco – Drª. Alcina Barreto

  • Graduada em Geologia pela Universidade Federal de Pernambuco (1983), realizou o mestrado (1993) e doutorado em Geociências pela Universidade de São Paulo (1997) e pós-doutorado em Geoconservação – Conservação de Patrimônio Geológico (2012) na Universidade do Minho (Portugal). É professora Associada da Universidade Federal de Pernambuco.
  • Contemplou os participantes com belas imagens sobre os achados fosseis de Pernambuco.

Dia 04/05: Paleoecologia – Ana Karoline Barros Silva

  • Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Rural de Pernambuco/Unidade Acadêmica de Serra Talhada – UFRPE/UAST (2011) e mestra em Geociências pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (2015).
  • Explanou o tema, elucidando tópicos como “O que é?” “Quais aplicações?” e aplicando casos os tópicos desenvolvidos na palestra.

Dia 05/05: Quando a Antártica era tropical – Evidências baseadas em Paleovertebrados. Drª. Juliana Sayão

  • Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Santa Úrsula (2000), mestrado em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003) e doutorado em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007). Atualmente é professora adjunto no Núcleo de Ciências Biológicas do Centro Acadêmico de Vitória (Universidade Federal de Pernambuco).
  • A palestra teve como conteúdo a parte prática do trabalho de um paleontólogo, trazendo relatos da prospecção para Antártica realizada pelo projeto ProAntar, visando coletar evidências fósseis da época em que a Antártica era parte da Gondwana.

Dia 06/05: Micropaleontologia Aplicada – Drª. Enelise Katia Piovesan

  • Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (2005). Mestrado e Doutorado em Geologia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Atualmente é Professora Adjunta na Universidade Federal de Pernambuco. Tem experiência na área de Paleontologia, especificamente no estudo de ostracodes do Cretáceo, paleoecologia, paleobiogeografia e bioestratigrafia.
  • Trouxe conceitos e técnicas para o estudo dos microfósseis, bem como sua aplicação na indústria e na ciência.

 

Débora Almeida

Poeira contaminada pode afetar milhares de vidas no oceano

Como os climatologistas acompanham de perto o impacto da atividade humana sobre os oceanos do mundo. Os pesquisadores do Georgia Institute of Technology descobriram que há ainda outra tendência preocupante impactando a saúde do Oceano Pacífico.

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Imagem: Como o ferro é depositado a partir da poluição atmosférica ao longo da costa leste da Ásia – as correntes oceânicas carregam os nutrientes para muito longe.

Crédito: Georgia Institute of Technology

Um novo estudo realizado por pesquisadores da Tech’s School of Earth and Atmospheric Sciences, da Geórgia, mostra que, durante décadas, a poluição do ar que deriva do leste asiático se estende ao longo do maior oceano do mundo, sendo impulsionado por uma reação em cadeia que contribuiu para que o nível de oxigênio decaísse, indo há uma milha de distância em milhares de águas tropicais.

“Há uma consciência crescente de que o nível de oxigênio pode estar mudando nos oceanos ao longo do tempo”, disse Taka Ito, professor adjunto da Geórgia Tech. “Uma das razões para isto é o aquecimento global – água morna detém menos gás. Mas no Pacífico Tropical, o nível de oxigênio foi caindo a um ritmo muito mais rápido do que a mudança de temperatura possa explicar. ”

O estudo, que foi publicado em 16 de maio de 2016, Na Nature Geoscience, foi patrocinado pela National Science Foundation, nas faculdades Georgia Power Scholar Chair e Cullen-Peck Fellowship.

No relatório, os pesquisadores descreveram como a poluição do ar, pelas atividades industriais, tinham níveis elevados de ferro e nitrogênio – nutrientes essenciais para a vida marinha – no oceano, ao longo da costa leste da Ásia. As correntes oceânicas, em seguida, levavam os nutrientes para as regiões tropicais, onde eram consumidos pelo fitoplâncton através da fotossíntese.

Mas, enquanto o fitoplâncton tropical poderia ter lançado mais oxigênio para a atmosfera, o consumo de nutrientes em excesso teve um efeito negativo sobre os níveis de oxigênio dissolvido nas profundezas do oceano.

“Se você tem uma atividade fotossintética mais ativa na superfície, ela produzirá mais matéria orgânica do que decairá”, disse Ito. “E como ela decairá, existem bactérias que consumirá a matéria orgânica. Como nós respiramos oxigênio e exalamos CO2, as bactérias consumirão o oxigênio no oceano subaquático e haverá uma tendência a esgotar o oxigênio.”

Esse processo ocorre por todo o Pacífico, porém, os efeitos são mais marcantes em áreas tropicais, onde os níveis de oxigênio dissolvido são menores.

Athanasios Nenes, professor da Tech’s School of Earth and Atmospheric Sciences e da School of Chemical and Biomolecular Engineering, da Geórgia Tech, que trabalhou com Ito no estudo, disse que a pesquisa é a primeira a descrever o quão longe o impacto da atividade industrial pode ser.

“A comunidade científica sempre pensou que o impacto da poluição do ar sente-se nas imediações do local onde ele é depositado”, disse Nenes, que também trabalha na faculdade Georgia Power Scholar Chair. “Este estudo mostra que o ferro pode circular através do oceano e afetar ecossistemas há milhares de quilômetros de distância.”

Embora as evidências de que as mudanças climáticas possam ter um impacto nos níveis futuros de oxigênio tenham sido crescentes, Ito e Nenes, foram induzidos a procurar uma explicação sobre o porquê de os níveis de oxigênio nos trópicos terem vindo a diminuir desde os anos de 1970.

Para entender como o processo funcionava, os pesquisadores desenvolveram um modelo que combina a química da atmosfera, ciclos biogeoquímicos, com a circulação oceânica. Tal modelo mapeia como a poluição de uma poeira rica em ferro se instala sobre o Pacífico Norte, e acaba sendo transportada pelas correntezas oceânicas do Leste, para a América do Norte, ao longo da costa e depois de volta para o Oeste indo até o Equador.

Em seu modelo, os pesquisadores explicaram outros fatores que também podem afetar os níveis de oxigênio, como a temperatura da água e a variabilidade das correntes oceânicas.

Seja devido ao aquecimento das águas do mar ou ao aumento da poluição do ferro, as implicações das crescentes zonas mínimas de oxigênio na vida marinha são de longo alcance. “Muitos organismos vivos, dependem do oxigênio que é dissolvido na água do mar”, disse Ito. “Então, se ele ficar baixo o suficiente, poderá causar problemas, que ocasionará mudanças no habitat de organismos marinhos.”

Ocasionalmente, as águas das zonas mais baixas de oxigênio, movem-se até as águas costeiras, matando ou deslocando populações de peixes, caranguejos e vários outros organismos. Esses “eventos hipóxicos” podem se tornar mais frequentes a medida que as áreas de oxigênio mínimo começarem a crescer, disse Ito.

A crescente atividade do fitoplâncton é uma espada de dois gumes, disse Ito. “O fitoplâncton é uma parte essencial da vida marinha”, disse ele. “Ele serve como uma base da cadeia alimentar e absorve o dióxido de carbono atmosférico. Entretanto, se a poluição continuar a oferecer os nutrientes em excesso, o processo de decomposição esgotará o oxigênio das águas profundas, sendo este oxigênio de difícil substituição.”

O estudo também expande a compreensão da poeira como poluente, disse Nenes.  “A poeira sempre atraiu um grande interesse devido ao seu impacto sobre a saúde das pessoas”, disse Nenes. “Este é realmente o primeiro estudo que mostra que a poeira pode ter um enorme impacto sobre os oceanos, de maneira que nunca entendi antes. Ele só aumenta a necessidade de entender o que estamos fazendo para os ecossistemas marinhos, que são consumidos por populações de todo o mundo.”

Fonte: Georgia Institute of Technology. “Polluted dust can impact ocean life thousands of miles away.” ScienceDaily.Disponível em: <www.sciencedaily.com/releases/2016/05/160516115306.htm>.

 

Milena Xavier

Tudo é feito de átomos

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Você já parou para pensar qual é a informação mais importante do mundo? Se a humanidade fosse dizimada hoje por um cataclismo e pudéssemos deixar apenas uma única informação para os poucos sobreviventes, qual seria ela? Segundo Richard Feynman, no seu livro Lectures on Physics, a informação mais preciosa seria: tudo é feito de átomos e qualquer coisa pode ser descrita como uma relação entre eles. De fato, a ideia de átomos é muito importante e permeia a cabeça de alguns pensadores desde antes de Cristo. Ela surge, pelo que sabemos, com Leucipo e foi aprimorada por seu aprendiz, Demócrito. Na verdade, Leucipo se perguntou se a matéria era contínua, ou seja, se partimos um pedaço de madeira várias e várias vezes em partes cada vez menores, chegaremos a um ponto que ele não poderá ser mais partido ou não existe um ”chão” para a matéria? Podemos pensar nisso como um mergulho infinito para dentro da matéria.

Os átomos permaneceram esquecidos por alguns séculos, pois não haviam maneiras práticas de investigar essa ideia. Mas no século XVII, Robert Hook conseguiu observar coisas incríveis através dos primeiros microscópios eficientes. Entre elas estava os olhos compostos de uma mosca que são formados por dezenas de olhos individuais. Ele notou que um olho simples da mosca tinha um tamanho da ordem de um micrômetro (10-6 metros). Ora, um olho não pode ser formado por um único átomo, afinal os olhos não são a unidade fundamental da matéria de nenhum ponto de vista plausível. Logo, os átomos devem ter um tamanho muito menor que um micrômetro.

Benjamin Fraklin também investigou, mais tarde, a intrigante ideia do tamanho das unidades fundamentais da matéria. O modo como ele o fez foi bastante simples, mas também extremamente genial. Na época, conheciam-se algumas propriedades da trioleína, que é um ácido graxo, entre elas a incrível capacidade de se espalhar de uma maneira muito uniforme por uma superfície. Era sabido que água e óleos não se misturam com facilidade, e dada essa propriedade da trioleína, Benjamin pegou um volume conhecido do óleo e o jogou sobre uma superfície calma de um lago na Inglaterra. Quando todo o óleo se espalhou pela superfície do lago, ele mediu a área da mancha que a trioleína fez no lago e dividiu o volume que ele havia jogado sobre a água do lago pela área obtida nas suas medições. Pense nisso como um problema simples de geometria espacial onde a área da base, ou seja, a área da mancha de óleo, vezes a altura, ou seja, a espessura da camada de óleo, dão o volume total.  O resultado encontrado por ele foi da ordem de um nanômetro (10−9 metros). Isso significava que os átomos devem ter pelo menos um nanômetro de espessura. De fato, Benjamin Franklin se aproximou bastante do valor mais aceito atualmente pela sociedade científica, que é de cerca de um angstrom (10-10 metros).

Um pouco depois de Fraklin, Pierre Laplace, um francês, e Thomas Young, um inglês, atacaram o problema do átomo. Nessa época, as ideias de Newton já eram bem conhecidas por toda a elite intelectual, e isso foi crucial para o desenvolvimento da teoria de Young-Laplace que, como veremos mais adiante, sugere de maneira extremamente elegante que átomos existem baseando numa observação muito simples: a transição de fase líquido-vapor.

O raciocínio inicia-se do ponto de vista molecular, ou seja, postulando a existência dos tais átomos. Ao analisar as moléculas da água, é intuitivo que todas as forças de atração e repulsão atuantes nelas se anulam, exceto na interface liquido-ar. Vale lembrar que as ligações de hidrogênio, que são interações intermoleculares, atuam mantendo as moléculas de água coesas entre si. Nessa fronteira entre a água e o ar, a força resultante é para baixo, pois não há nenhuma molécula do líquido puxando essas moléculas da superfície para cima. A essa força damos o nome de tensão superficial. Além da força de tensão superficial, as moléculas de água também se comportam de acordo com o calor latente de vaporização, que é a energia térmica necessária para levar uma certa massa de água do estado líquido para o de vapor. Quando você está tentando esquentar água na sua casa, por exemplo, não basta acender um fósforo por 5 segundos debaixo da panela para que a água comece a ferver. A energia que as moléculas de água necessitam para se soltarem das amarras das forças intermoleculares é alta e invariável.

Depois de algumas racionalizações relativamente simples aliadas a um experimento, as quais você poderá conferir no final do texto se tiver interesse, Young e Laplace chegaram a uma fórmula que, como todas as equações científicas, informa algo importante sobre a natureza. Porém, essa equação específica, sugere algo extremamente sofisticado: partindo da ideia de que um líquido sofre uma força de tensão superficial e que está sujeito as amarras do calor latente de vaporização, a única forma dessas duas quantidades físicas existirem em conjunto com líquidos e gases ao mesmo tempo no nosso universo, é se a matéria for descontínua, ou seja, se os átomos existirem.

Agora que passeamos por algumas ideias e experimentos estimulantes, podemos parar para pensar em todo o conhecimento e em toda a tecnologia que a ideia dos átomos propiciou à humanidade. Desde carros, celulares e computadores, à física quântica, nanotecnologia, medicina moderna, astrofísica, remédios eficientes e viagens espaciais. Tudo isso existe ou funciona porque pessoas tentaram demonstrar que átomos são uma ideia crucial para entendermos o universo. Tudo é feito de átomos. Os dedos da sua mão têm átomos de hidrogênio iguais aos que ficam dentro de uma estrela como o Sol. O nitrogênio que forma o seu DNA é exatamente igual ao nitrogênio do ar atmosférico. Mas então por que meu dedo não se parece com o núcleo do Sol ou as cadeias de DNA das minhas células não tem a densidade do ar atmosférico? A resposta para isso é, como sabemos, que o modo como os átomos interagem uns com os outros, mudam significativamente a maneira como percebemos a matéria. Somos seres que evoluíram, pelo menos nos últimos milhões de anos, para sobreviver na savana africana. Tínhamos que lidar com problemas de meia escala, ou seja, nem com coisas muito pequenas como átomos, nem com coisas muito grandes como distâncias intergalácticas. Os nossos sentidos não estão adaptados à noção de átomos e moléculas e provavelmente nunca estarão. Mas temos uma carta na manga: nosso córtex pré-frontal extremamente desenvolvido. Podemos usá-lo para investigar escalas as quais não estamos adaptados a perceber e ter o privilégio de conhecer mundos incríveis. A escala atômica é tão importante para a humanidade hoje que foi considerada a informação mais importante já produzida.

Aqui está a explicação um pouco mais detalhada sobre as ideias de Young e Laplace para quem tem um pouco mais de curiosidade. Vale a pena tentar entender todas as etapas do raciocínio, e se surgir qualquer dúvida, podem perguntar nos comentários. Como havíamos visto o raciocínio inicia-se do ponto de vista molecular, ou seja, postulando a existência dos tais átomos. Ao analisar as moléculas da água, é intuitivo que todas as forças de atração e repulsão atuantes nelas se anulam, exceto na interface liquido-ar. Vale lembrar que as ligações de hidrogênio, que são interações intermoleculares, atuam mantendo as moléculas de água coesas entre si. Nessa fronteira entre a água e o ar, a força resultante é para baixo, pois não há nenhuma molécula do líquido puxando essas moléculas da superfície para cima. A essa força damos o nome de tensão superficial. Como trata-se de um ambiente tridimensional dinâmico, vale a pena definirmos algumas quantidades. Primeiro iremos tomar cada molécula como um cubo, para facilitar o raciocínio. Sendo assim, um cubo de aresta d tem volume = d³. E definido £ como a densidade da molécula, sua massa é: m = £ d³, já que densidade é massa sobre volume. Outra quantidade importante é o calor latente de vaporização do fluido, C, que tem unidades de energia sobre massa. Tendo essas quantidades em mente, a energia térmica necessária para transformar n moléculas de água com massa £ d³ da fase líquida para a gasosa é C £ d³. Calma aí, parece que agora tudo começou a ficar complicado, certo? Não se você seguir as unidades, aliás, as unidades sempre são um excelente mapa para entender equações. Havíamos notado que o calor latente de vaporização, C, tem unidades energia/massa e que d³ £ tem unidade de massa. Logo, se multiplicarmos energia massa/massa, teremos energia. Essa energia que obtemos nessa conta é a energia necessária para levar 1 grama de água do estado líquido para o de vapor. Agora vem um insight razoável, que tem como base a termodinâmica: essa energia que acabamos de obter nesse cálculo, também pode ser definida como uma aproximação do trabalho necessário para transformar água líquida em vapor. Então temos que F d ~ C £ d³, logo F ~ C £ d² (eq. 1) onde F é a força e d é o deslocamento das partículas.

Para determinar o trabalho W, Young e Laplace fizeram a seguinte experiência: colocaram um arame sobre uma superfície calma de um liquido e empurraram o arame por uma distância x, usando uma força F. Essa força F é exatamente igual à força de tensão superficial ¢. E como a distância entre os centros das moléculas, tomando-as como um cubo de aresta d, é d, pois elas estão dispostas lado a lado, a área da superfície superior é d². Então se o trabalho W = F d, mas também é ¢d², pois é a força aplicada à superfície do líquido de área d², a força F= ¢d (eq. 2).

Agora juntando as equações 1 e 2 temos: ¢ d= C £ d², então d = ¢/C £, onde £ é a densidade da água, C é o calor latente de vaporização, d é o tamanho das moléculas e ¢ é a força de tensão superficial. Baseando-se nessa equação, se d=0, ou seja, se a matéria fosse contínua, e a densidade do líquido for finita, o que é aceitável, ¢ tenderia a 0. Daí concluímos que se ¢, a força de tensão superficial, é finita, o calor latente de vaporização tenderia ao infinito, ou seja, não existiriam gases, pois seria necessária uma quantidade infinita de energia para vaporizar um líquido. Atribua valores arbitrários a essas quantidades para ficar mais fácil de notar essas relações. Por exemplo, se ¢ = 54, e C = 10³³³³³³³³³³³³, o quociente ¢/C tende a 0. Por outro lado, se a tensão superficial ¢ tendesse a zero, e C fosse finito, só existiriam gases, pois seria necessária uma quantidade ínfima de energia para vaporizar um líquido e existem quantidades palpáveis de energia no universo em forma de calor. Em resumo, não existiria transição de fase líquido-vapor, e como não observamos isso, d é diferente de 0. A matéria é descontínua. Os átomos se mostram uma ideia necessária e satisfatória.

 

Giordano Bruno

A importância do método científico

Se você for uma pessoa que acompanha o que acontece no mundo contemporâneo com certeza já viu como a informação pode divergir, pode ter escutado um milhão de linhas de raciocínio, algumas com certezas bem profundas, mas sempre falhas em determinado ponto ao tentar ter o conhecimento.  Mas mesmo não podendo explicar questões corriqueiras, você continuou levando sua a vida normalmente, afinal, como lidar com o mundo, será uma questão bem pessoal, e enquanto alguns seguem dogmas e desígnios absolutos, outros consideram a dúvida e o poder de questionar e resolver mistérios uma benção.

A verdade é que conhecimento e informação se fazem de todas as formas e não existe autoridade ou jurisdição que vá delimitar isso. Mas existe uma linha específica de pensamento em que se pode colher informações de maneira  muito mais eficiente e de forma bastante prática, observando como os fatos podem ter uma mecânica em que atuam independente da nossa consciência sobre eles.  Pensamento esse conhecido como método científico, nome que provavelmente não lhe é nenhuma novidade, e que elabora as suas descobertas através fatos que podemos palpar e descrever. O modo como ele se ordena é:

  1. Observação: Ver o que está acontecendo;
  2. Questionamento: O que você quer descobrir dentro daquilo que está acontecendo;
  3. Formular Hipótese: Que será a possível resposta daquele problema que você quer resolver, resposta elaborada por uma linha de raciocínio coerente;
  4. Experimento: Testar o que você observou a partir da resposta que você formulou;
  5. Conclusão: Observar o que aconteceu no final e comparar com o que você esperava.

De forma resumida o método se baseia em pegar um problema concreto, pensar em uma forma de resolvê-lo e assim solucionar a problemática de forma visível e com justificativas coerentes. Esse é o caminho que físicos, químicos e biólogos entre outros realizam que podem melhorar nossas vidas. E se quiser uma prova disso, observe tudo o que o cerca e verá que provavelmente pelo menos 70% do seu dia depende de alguma coisa que só pôde ser criada devido a elaboração anterior do método científico. A ciência em si está longe de querer elaborar e impor verdades frente às pessoas, mas sim trazer reflexões que só tem a acrescentar a sua vida.

Até esse ponto da prosa você pode ter entendido que devemos confiar em todo discurso que sai da boca de quem trabalha com essa estratégia metodológica, mas não. O objetivo é sermos críticos com toda a informação que nos cerca. Não só pra saber se devemos confiar no que nos dizem, mas pra poder levar a sua vida de forma mais segura, afinal o ponto mais importante dessa prática é o questionamento.

Você pode ser metodológico com o modo como o médico está tratando o seu pai e o que ele considera ser a sua doença. Pode ser com modo como alguém está sendo julgada e pelo que fez, como você pode fazer a sua firma funcionar melhor, como você pode estudar de forma mais prática para aquele vestibular. Você pode observar o temperamento agressivo de um filho ou amigo, se perguntar o que está provocando isso, o que você pode fazer pra ajudar, como você pretende que ele se sinta no final e ai colocar mãos a obras, se o que você deduziu ser o problema dele estiver errado, mude a hipótese e tente outra solução, e o método prova sua eficiência outra vez.

Você ainda pode ter um receio de usar em situações mais específicas, como para debater com um médico que está diagnosticando o problema de coluna do seu pai, e deixar isso nas mãos dele. Mesmo assim isso não é justificativa pra não entender o que ele está fazendo, principalmente quando vivemos na era da informação e da divulgação científica, onde vários pesquisadores tentam trazer esses assuntos mais complicados e explica-los de forma mais suave para que dúvidas sérias como essa não atormentem mais pessoas leigas (Aliás, quantas pessoas não são prejudicadas por um diagnóstico errado?). Explicações essas elaboradas a partir do método científico provenientes de fontes que não são informações privilegiadas de ninguém, e que existem justamente para fornecer melhor compreensão.

E caso tenha surgido a dúvida: “então tudo que é divulgado, eu tenho que levar com a  suspeita de ser algo maléfico?” e a resposta a isso é não. Sim! Tudo deve ser passivo de um pensamento crítico, mas isso significa que você deve ir atrás da resolução da informação e saber como ela se constrói, e em você levar isso de uma forma coerente, razoável e lógica e não com a pretensão de achar uma teoria da conspiração. Fazendo isso provavelmente terá uma informação muito mais bem embasada.

Alguns ainda podem achar que esse método pode ser manipulável, de má fé (Afinal o que é imune a isso?) e outros podem tê-lo conhecido por representantes de má fé, mas independente dessas variáveis, é satisfatório dizer que ele é, no mínimo, coerente e fazemos uso dele ilimitadamente. Colocar isso em prática conscientemente e escutar aqueles que trabalham junto a isso não é esforço algum. Conhecimento, é a única coisa que será proporcionada, e como o antigo sábio Einstein já disse, “O mundo é do tamanho do nosso conhecimento”.

 

José Rodolfo de Lima e Silva

Por que Ecoevolucionando?

O projeto Ecoevolucionando surgiu como uma iniciativa de divulgar a importância do conhecimento sobre a evolução, a genética e a ecologia no ambiente acadêmico, mas que também tomou rumos mais abrangentes, como informar não só as pessoas inseridas no mundo acadêmico, mas também quem está de fora dele, sobre a importância do conhecimento científico das mais diversas áreas. Afinal, a ciência tem se mostrado um excelente método em busca do que é de fato real. Quando usamos ciência para curar pessoas, elas saram; quando usamos ciência para nos locomover de modo mais eficiente, cruzamos oceanos em apenas algumas horas ou chegamos à lua. Ela simplesmente funciona, apesar de está sujeita a algumas limitações.

Uma dessas limitações é inerente ao próprio método científico: não há verdades inquestionáveis. Na verdade, o desenvolvimento científico surge exatamente do questionamento de hipóteses que aparentam ser plausíveis,  e quando essas hipóteses são colocadas à prova e resistem aos testes empíricos, ganham o status de hipótese científica; a medida que quanto mais testes corroboram essa hipótese, ela vai ganhando força e pode chegar ao status de teoria científica.

É óbvio que se alguém constatar alguma falha nessa hipótese ou teoria científica, e mais um vez, novos testes forem feitos baseados nessa nova ideia de que a teoria está errada e apontarem nessa direção, ela vai se enfraquecer ou simplesmente ser descartada. A ciência não tem medo de errar, pelo contrário, a falseabilidade (capacidade de ser posto à prova) de uma ideia é um dos alicerces do pensamento científico.

E é exatamente por isso que o método funciona tão bem. Ele não está preso a dogmas ou a desejos pessoais dos cientistas. Seu único objetivo é conhecer a verdade sobre um certo aspecto da realidade da maneira mais sensata, racional e empírica possível. De modo que está sempre se atualizando conforme novas informações são trazidas e postas à prova pelos acadêmicos.

Tendo em vista que a ciência busca a verdade como ela é e não como gostaríamos que ela fosse, e que a sua eficiência vem se mostrando bastante satisfatória, um grupo de alunos da UFPE decidiu mostrar esse modo de ver o mundo, não só para ajudar nas questões econômicas, políticas, profissionais, sociais, intelectuais e de saúde de cada indivíduo, mas também para dar a oportunidade das pessoas terem uma visão de mundo completamente extasiante, livre e estimulante. Afinal, a ciência não está ligada apenas a foguetes e medicamentos complexos, ela realmente oferece um estímulo pessoal a cada um em busca da verdadeira face do nosso universo.