Música melhora humor

Imagine estar ao lado de uma cachoeira, deitado sob as rochas, com os olhos fechados, sentindo o frescor do vento e ouvindo o som da cascata. Que sensação isso lhe causa? A música não só nutri a alma, é uma terapia confirmada. Vários estudiosos de música, terapeutas e pesquisadores têm validado os efeitos benéficos da música no combate a dor e ansiedade, na melhora do humor, no estimulo para o exercício físico e na sensação de felicidade.

Isso acontece porque a música possui grande influencia neuropsicológica, com fácil acesso à afetividade, comando de impulsos, emoções e estímulos. Quando chegam aos ouvidos, os sons são transformados em impulsos que se movem até o tálamo, local do cérebro considerado central para as emoções. Os impulsos cerebrais causados pela música afetam o corpo todo e podem ser detectados por técnicas de escaneamento cerebral (GASPARINI, 2003).

Uma pesquisa publicada pela Universidade da Califórnia constatou que pessoas que romperam o namoro ou estão passando por situações difíceis consumem mais músicas tristes, pois auxilia na superação da fase ruim. A escolha por determinados estilos musicais entra em harmonia com o estado de humor, isso é atestado na pesquisa realizada com 167 pessoas pela Universidade de Missouri. Esse estudo foi feito com dois tipos de músicas diferentes, uma mais alegre e outra mais sombria, e constatou que uma música otimista pode impulsionar o estado de espírito. No decorrer de duas semanas, quem escutou a música mais alegre sentiu sensação de felicidade e quem ouviu a mais sombria não teve sentimento de satisfação.

Vale lembrar que “O efeito da música no cérebro ou corpo depende, em partes, de seu gênero”, disse o professor de psicologia da ReyersonUniversity, Frank A. Russo, ao Yahoo Health, depende do quanto se gosta ou não dela. “Uma pessoa que é fã de metal provavelmente será capaz de ver uma série de emoções em uma música que os outros acham agressiva”, conta.

A música atinge o centro de prazer do cérebro, libera dopamina e provoca uma sensação de bem estar. Por isso está sendo comumente usada por médicos e terapeutas como tratamento de diversos problemas, onde os próprios pacientes tocam os instrumentos musicais, auxiliados pelos profissionais. A musicoterapia melhora a qualidade de vida e atinge de crianças a adultos, proporcionando a reabilitação física, mental e social de pessoas de todas as idades. A música é capaz de mudar a sua percepção de vida. Aperte o play.

Referências:

GASPARINI, G. Musicoterapia usa identidade musical para ativar cérebro. Equilíbrio e saúde, 2003.

Portal G1. Música acalma, estimula a memória e alivia dores. Disponível em: http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2013/06/musica-acalma-ajuda-na-atividade-fisica-e-tambem-pode-aliviar-dores.html . Acesso em: junho de 2013.

Portal Yahoo Health. O que acontece com seu cérebro quando você escuta música. Disponível em: https://br.vida-estilo.yahoo.com/o-que-acontece-com-o-190005481.html  . Acesso em: novembro de 2015.

Portal Mente Cérebro. Música animada ajuda a melhorar humor. Disponível em: http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/musica_animada_ajuda_a_melhorar_o_humor.html>. Acesso em: junho de 2013.

O corpo “fala”

Existe uma grande variedade de livros sobre linguagem corporal disponível no mercado. Estes livros prometem ensinar o leitor a identificar traços de personalidade das pessoas com base em observações dos gestos que elas fazem e também com base no formato de certas partes do corpo. Estes livros também apresentam formas de identificar mentiras e desmascará-las por meio de observação da linguagem corporal e das expressões faciais. Muitas pessoas que estudam temas deste campo também alegam poder perceber aspectos ainda mais íntimos sobre as pessoas que observam, como conflitos emocionais e problemas familiares ou existenciais. Por exemplo, neste link você pode aprender o que o formato dos seus glúteos tem a dizer sobre a sua capacidade de tomar decisões sozinho(a) e de “não depender de ninguém”, por exemplo; Ou ainda como a celulite resulta do acúmulo de emoções como raiva e autopunição.

Após acessar esse link, tente encontrar artigos científicos demonstrando que esse conteúdo faz sentido. Não há evidência entre a comunidade científica de que a “leitura” do corpo funcione desta forma. No livro “A linguagem secreta do corpo”, de Anna Guglielmi, encontra-se outro exemplo (dentre vários no livro) de suposição baseada na aparência de partes do corpo que não possui fundamentação científica: “Barba e bigode espessos indicam que a pessoa é mais inclinada à atividade física; que é robusta, prática e pouco interessada na atividade mental”. Talvez o bigode de Friedrich Nietzsche seja um bom exemplo contrário (principalmente sobre a parte de interesse na atividade mental) que sirva para ilustrar que esta forma de análise de personalidade tem algo de incorreto.

É preciso ler com cautela e questionar a veracidade do que está escrito. Se você prestar atenção, verá que estas análises corporais apenas parecem fazer sentido, pois existe uma grande quantidade de exceções. Em outros casos, as afirmações são tão vagas e generalizadas que qualquer pessoa poderia achar que fazem sentido. Por exemplo: “Pessoas do Signo de Leão são egocêntricas”. Obviamente existem pessoas egocêntricas com todo tipo de signo, mas as pessoas perpetuam esse conhecimento de que os signos apresentam características específicas de personalidade. O que leva ao erro de interpretação do comportamento humano.

Voltando à linguagem corporal, será que tudo que se refere a este tema é fruto da imaginação e não tem absolutamente nada de útil? Não é bem assim. De fato, existe uma análise científica da linguagem corporal que obteve resultados satisfatórios (o suficiente para serem utilizados por agências policiais como o FBI em interrogatórios) no campo da inferência sobre estados emocionais. Porém o embasamento teórico se estrutura principalmente em fisiologia humana, o que é uma base das quais as fontes acima citadas carecem. Uma forma eficiente de analisar a linguagem corporal humana é observando sinais fisiológicos de emoções. Como por exemplo, ao sentirmos medo, no nosso corpo ocorrerá uma secreção de hormônios glicocorticóides, como a noradrenalina e cortisol. Estas substâncias irão causar alterações em diversos sistemas, como aumentar nossa frequência cardio-respiratória, dilatar nossas pupilas, constringir nossos vasos sanguíneos periféricos, dilatar nossas artérias situadas nos grandes músculos como os das coxas, além de dificultar a atividade da fala e do raciocínio. Estas modificações fisiológicas foram selecionadas evolutivamente e estão presentes em todos os grupos humanos. É por isso que o medo é uma das emoções classificadas como universais, o que significa que todos os humanos possuem a capacidade de sentir medo codificada em seus genes (desconsiderando mutações e outras síndromes que causem alteração cromossômica, é claro, além de casos extremos como a psicopatia. Mas isso é assunto para um outro texto). Desta forma, é útil recorrer ao conhecimento da fisiologia para reconhecer os efeitos dos estados emocionais, porque desta forma podemos tirar conclusões mais confiáveis. A constrição dos vasos periféricos poderá causar um tremor nas mãos e pés, ou ainda uma palidez no rosto. A alteração cardiorrespiratoria mudará a movimentação da caixa torácica, e além disso também poderá ocorrer sudorese (que também é um efeito causado pelos hormônios glicocorticoides). Estes e outros sinais poderão ser usados para chegar à conclusão de que alguém está sentindo medo. Se você quer aprender melhor a como reconhecer emoções nas outras pessoas, leia o livro “A linguagem das emoções”, escrito pelo psicólogo e pesquisador Paul Ekman.

E para ilustrar a eficiência da abordagem científica na leitura de linguagem corporal, aqui está um artigo que mostra uma análise feita com um réu acusado de homicídio depondo no tribunal. No experimento, foram identificados sinais de mentira no depoimento, e estes sinais são discutidos no artigo.

Por que sentimos raiva?

Vamos discutir sobre a expressão agressiva da raiva. Todos nós já experimentamos esta emoção intensamente em algum momento. Os batimentos cardíacos aumentam, as pupilas dilatam, a temperatura corporal aumenta, ficamos ofegantes, nossos músculos esqueléticos ficam tensos e assumimos uma postura que indica que se aproximar não é uma boa ideia. Não conseguimos pensar direito e muitas vezes acabamos agindo antes de avaliar as consequências dos nossos atos, machucando outras pessoas física ou emocionalmente (ou até a nós mesmos). Ações motivadas pelo sentimento de raiva são descritas há séculos em diversas culturas, e se você está se perguntando se a raiva é um fenômeno global, o psicólogo e pesquisador Paul Ekman responde que sim. Como é possível saber disso? Por acaso ele visitou todas as culturas do mundo para procurar alguma sociedade em que as pessoas não sintam raiva? Quase. Ekman, como uma série de outros pesquisadores, procurou visitar países em todos os continentes para recolher informações sobre as emoções humanas, desde os Estados Unidos e Japão, países com grande desenvolvimento tecnológico de meios de comunicação, até Papua Nova Guiné, um país em que alguns nativos não possuem meios como internet, televisão ou até mesmo telefone. Alguns deles nunca tinham visto câmeras de filmagem [1].

Esta e outras pesquisas levaram os cientistas a corroborar a ideia de que a raiva (entre outras emoções) é um sentimento presente em toda a espécie humana, e que foi herdada de nossos ancestrais hominídeos por ter sido uma ferramenta útil para a sua sobrevivência e consequente reprodução. Ser agressivo provavelmente trouxe alguns benefícios para nossos ancestrais, como conseguir alimento, vencer predadores em combates, conquistar posições de alto status em seus grupos e até a conseguir parceiros para se relacionar [2]. Pense um pouco. Os indivíduos que fugiram de predadores puderam sobreviver e se reproduzir, mas também puderam aqueles que lutaram e mataram a ameaça. Obviamente lutar é uma estratégia mais perigosa do que simplesmente fugir, porém nós herdamos a capacidade de agir das duas formas. Possuímos a habilidade de correr ou de gritar, xingar, esmurrar, chutar e morder se nosso cérebro achar que é necessário. A agressividade está em nosso código genético, que por sua vez é o responsável por todo o aparato anatômico e fisiológico que está envolvido nas reações de raiva e violência.

Então isso quer dizer que estamos predestinados a sermos violentos? Não. Visite um templo budista, acho que não verá muitos homicídios acontecendo. Ou então olhe à sua volta. Não estamos sempre em embates ferozes contra as pessoas com quem convivemos, e podemos criar relações cordiais e confiáveis com nossos semelhantes. Isso demonstra que a agressividade não é apenas determinada geneticamente, e que existem outros fatores ambientais que influenciam seu desenvolvimento.

Um desses fatores é uma espécie de influência social. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Paraná mostra um exemplo de como a agressividade pode ser estimulada por influência de fontes externas como filmes, por exemplo. Foi observado como um filme violento (contendo cenas de abuso físico e psicológico) causou um aumento considerável no comportamento agressivo dos adolescentes participantes do experimento. Este aumento foi percebido por meio da observação dos adolescentes jogando futebol entre si. O grupo de colaboradores que assistiram ao filme violento foi mais agressivo do que o grupo que assistiu um filme não violento. Também foram mais agressivos que o grupo que não assistiu filme algum (grupo controle). [3]

Mas calma, não podemos concluir que assistir filmes do tipo “Duro de matar” vai nos transformar em atiradores violentos. Obviamente precisamos pensar em outras variáveis que favorecem o surgimento da raiva e sua expressão agressiva. Como mostra este artigo publicado na revista eletrônica Cesumar , a violência pode ter sido recompensada desde muito cedo para algumas pessoas, e por isso se perpetuou durante todas as suas vidas. Por exemplo, se uma criança conseguir um brinquedo ao gritar e xingar os pais, este comportamento será reforçado. Se ela conseguir um chocolate ao ameaçar quebrar algo de valor, este comportamento será reforçado. Se ela conseguir qualquer tipo de privilégio ou algo que goste por meio de gritos, ameaças, xingamentos, palavrões e agressões físicas, isso se tornará um hábito para ela, afinal assim ela conseguirá o que quer. Isso pode se tornar um problema grave, pois imagine o que aconteceria se uma criança com certa predisposição genética a agressividade tivesse pais permissivos.

Este ponto é bastante complexo, pois ao mesmo tempo que pais passivos demais podem criar filhos extremamente agressivos, o mesmo pode ocorrer com pais muito rígidos e/ou violentos. Isso quer dizer que a raiva pode ser uma forma de reação para se defender da violência vinda dos familiares, e também pode ser compensadora para a criança quando afasta as pessoas que a agridem. E se algum comportamento é compensador, tende a durar. Se você quer entender mais profundamente como esse mecanismo de reação por meio da raiva funciona, o teórico e pesquisador B.F. Skinner explica isso em seu livro “Ciência e comportamento humano”.

Por fim, pense no quanto é importante que busquemos compreender que fatores permeiam esse grande problema social da violência. Este é um passo necessário para um melhor planejamento de mudanças políticas que de fato reduzam os índices de agressão em nossa sociedade, e possivelmente em todo o mundo. Imagine quantos crimes podem ser evitados, quantas famílias poderiam se sentir seguras nos lugares onde vivem, e no quanto a nossa civilização pode evoluir ao solucionar este enorme problema da agressividade. Isso não quer dizer que não vamos mais sentir raiva, mas que pelo menos podemos aprender a conviver com esta ferramenta herdada de nossos ancestrais.

Nossas decisões são tomadas conscientemente?

Alguns ramos da psicologia utilizam experimentos para observar como as pessoas interpretam e reagem a diversos tipos de estímulos. Desta forma, os observadores podem registrar o comportamento humano e formular explicações plausíveis sobre suas origens em nossas mentes. Estes procedimentos são bastante úteis para testarmos a aplicação de conceitos teóricos em situações práticas, para que assim possamos compreender se determinada teoria é suficientemente adequada para explicar determinado comportamento.

Como exemplo, utilizaremos o conceito de inconsciente. Este termo é utilizado no cotidiano para representar situações em que nós não sabemos o porquê de termos feito, dito ou sentido algo (também podemos usar para nos referirmos a alguém que não está acordado, mas não é esse o ponto aqui). No sentido definido pela corrente psicanalítica da psicologia, o inconsciente se refere à uma instância da mente (uma espécie de setor) que não podemos acessar utilizando a nossa atenção consciente e não sabemos exatamente o que tem lá. Este setor inconsciente supostamente guarda memórias de traumas que vivemos ao longo de nossas vidas, mas que nem sabemos que temos. Nós não sabemos os conteúdos dessas lembranças, mas elas influenciam nossas atitudes e a forma como reagimos emocionalmente. Segundo a teoria, seria possível conseguir acesso ao conteúdo do inconsciente por meio da análise terapêutica, para que assim o paciente tenha mais controle sobre as influências de suas memórias traumáticas e saiba lidar com isso.

Durante muito tempo a psicanálise foi combatida por teorizar sobre um setor da mente que não sabemos onde fica e não sabemos o que tem dentro. Mas atualmente a ciência dispõe de novos recursos para investigar o que se passa nas nossas cabeças (como máquinas de ressonância magnética funcional e tomografia por emissão de pósitrons), e daí vem a neurociência para nos ajudar a compreender esse problema do inconsciente. Será que ele realmente existe?

Como o autor e pesquisador Leonard Mlodinow explica em seu livro “Subliminar – como o inconsciente influencia nossas vidas”, todos os seres humanos são influenciados por estímulos que muitas vezes nem percebem, além de agirem, falarem e reagirem de formas que não são perfeitamente planejadas como muitos imaginam que sejam. Isso favorece a ideia de que nossas motivações não são totalmente racionais (algumas delas não são mais racionais que as de um ornitorrinco). Para ilustrar esse pensamento, tomemos como exemplo este estudo publicado na revista Science: 120 participantes receberam a tarefa de julgar a beleza de mulheres por meio de fotos. Cada participante precisou escolher uma dentre duas opções de fotografias de acordo com suas preferências estéticas. Foram mostrados 12 pares de fotos (totalizando 24), de modo que no final do experimento cada participante havia escolhido 12 mulheres. Após isso, o experimentador entregava ao participante a foto de uma das mulheres escolhidas e pedia para que o mesmo explicasse o porquê da sua escolha. Mas acontece que em alguns casos o experimentador entregava fotos das mulheres que não foram escolhidas pelos participantes, e 75% deles não perceberam isso. Isso rendeu explicações como “Ela é radiante” ou “Acho que ela parece mais simpática que a outra”, mesmo quando se referiam às fotos rejeitadas. Outros modelos deste experimento foram feitos utilizando escolhas de sabor de geleia (66% das pessoas não perceberam a troca), e de chás, como também foi citado por Mlodinow em seu livro.

O que podemos concluir dessas pesquisas é que as pessoas nem sempre tem consciência dos motivos que as levam a tomarem decisões e, portanto, devem existir outros fatores envolvidos em nossos processos mentais de tomada de decisão. Se você está pensando que isso afeta apenas coisas insignificantes como o nosso gosto para geleia, saiba que esse fenômeno se estende inclusive para o campo político. Em um estudo realizado pela universidade de Princeton e  citado no livro “Subliminar”, os cientistas pediram para que os voluntários avaliassem a competência de candidatos reais nas eleições governamentais e do senado nos Estados unidos com base em sua aparência. 72% dos candidatos avaliados como “competentes” por sua aparência no estudo acabaram vencendo as eleições para o Senado, enquanto que 69% venceram as eleições governamentais. Este e outros estudos demonstram como as nossas decisões podem ser influenciadas por informações que nem sabemos que estão sendo processadas pelo nosso cérebro. Neste caso, uma variável que não está ligada de fato à capacidade de exercer cargos políticos foi suficiente para prever com certo nível de precisão os resultados das eleições.

A concepção do inconsciente como um “universo obscuro e cheio de simbolismos” pode, aos poucos, ser substituída por explicações de origem evolutiva. Desta forma, ao invés de interpretar o inconsciente como uma espécie de entidade, podemos vê-lo como um mecanismo cerebral que foi herdado de nossos ancestrais hominídeos por ter demonstrado ser uma ferramenta útil para sua transmissão de genes e sua sobrevivência. Existe utilidade na capacidade do nosso cérebro processar informações sem que saibamos disso conscientemente, pois desta forma poderemos nos concentrar em outros estímulos mais relevantes. O mundo oferece uma quantidade de dados infinitamente maior do que podemos processar, e um cérebro que desse conta de todos esses estímulos seria inviável evolutivamente. Nós não somos uma exceção, e mesmo a nossa porção inconsciente não é capaz de captar todas as informações disponíveis no ambiente. Porém é extremamente útil possuir um mecanismo que gerencie os dados de uma forma que não ocupe a atenção consciente, pois sem isso nossos antepassados sequer conseguiriam fugir de um predador sem antes passar horas processando dados sobre sua aparência, cheiro ou sons que produz. Além disso, precisariam comer dezenas de quilos de comida para suprir a demanda energética desse super cérebro. Desta forma, não fomos moldados pela seleção natural para calcularmos deliberadamente os motivos e consequências de todas as nossas decisões e comportamentos. E isso é uma grande habilidade.

De onde vem o altruísmo

A ocitocina (ou molécula do amor, se você preferir) é um neurotransmissor que está envolvido com a gestação e amamentação em mamíferos. Entre algumas de suas funções estão a de estimular contrações da musculatura uterina durante o trabalho de parto e também a ejeção do leite materno pelas glândulas mamárias. Mas o que isso tem a ver com conceitos como amor, afeto, carinho e confiança? Para responder esta pergunta, precisamos analisar estudos sobre outros efeitos da ocitocina. Além de executar as funções citadas acima, foi evidenciado que ela também participa incentivando ações de cooperação, cuidado parental, busca por afiliação e outras formas de comportamento social em nós, mamíferos. A generosidade e o altruísmo humanos também são influenciados pela produção (ou até inalação) de ocitocina. De fato, experimentos realizados com o intuito de compreender essa influência demonstraram que a inalação desta substância foi suficiente para amplificar a generosidade de um grupo de adultos ao dividirem uma quantia em dinheiro com estranhos, por exemplo. Neste experimento, os sujeitos tinham a opção de dar uma pequena quantia para um completo estranho, ou até não dar nada caso quisessem. Mesmo assim, o grupo de pessoas que inalaram ocitocina foi 80% mais generoso do que o grupo controle (que recebeu um placebo). Isso mostra como o nosso julgamento de ganho versus perda é afetado por sentimentos de confiança e empatia.

Outro achado sobre a “molécula do amor” consiste na sua capacidade de reduzir a intensidade de reações como medo e ansiedade. E como se faz para averiguar isso? Utilizando ressonância magnética funcional para observar como o cérebro reage a estímulos visuais aversivos sob efeito de ocitocina e depois comparando com os cérebros que não receberam uma dose do hormônio. E isso foi feito, como mostra este artigo do The Journal of Neuroscience (http://www.jneurosci.org). Os cientistas obtiveram evidências de que a administração de ocitocina foi suficiente para reduzir a resposta do sistema nervoso autônomo simpático nos sujeitos, consequentemente diminuindo os sintomas fisiológicos da emoção de medo. Então é por isso que nos sentimos seguros, bem cuidados e protegidos quando estamos perto de alguém que amamos? Bom, talvez seja apenas uma questão de tempo até termos a resposta para essa pergunta, mas por enquanto só o que podemos dizer é que a ocitocina tem alguma coisa a ver com isso.

Por fim, vamos pensar em uma possibilidade divertida: Se inalar um pouco desse neurotransmissor pode fazer alguém ser mais altruísta, generoso ou até deixar de ser ansioso (além de se tornar mais propenso a desenvolver laços emocionais), porque ainda não podemos simplesmente comprar poções do amor pela internet? Porque não é assim que funciona (ainda bem!). Diversas inconsistências nos resultados de estudos sobre a influência da ocitocina no comportamento humano levam à conclusão de que seu efeito depende do contexto, e sobretudo de quais indivíduos estão envolvidos no processo³. Não basta dar uma dose de “moléculas do amor” pra uma pessoa e isso a transformará no seu mais novo namorado(a). Isso quer dizer que existem outros fatores que compõem a formação de laços entre nós, humanos. E talvez esses laços sejam combinações únicas entre tais fatores.

Referências:

1- http://www.sciencedirect.com/science                                 2- http://journals.plos.org/plosone/article                           3- http://www.cell.com/trends/cognitive-sciences/