O corpo “fala”

Existe uma grande variedade de livros sobre linguagem corporal disponível no mercado. Estes livros prometem ensinar o leitor a identificar traços de personalidade das pessoas com base em observações dos gestos que elas fazem e também com base no formato de certas partes do corpo. Estes livros também apresentam formas de identificar mentiras e desmascará-las por meio de observação da linguagem corporal e das expressões faciais. Muitas pessoas que estudam temas deste campo também alegam poder perceber aspectos ainda mais íntimos sobre as pessoas que observam, como conflitos emocionais e problemas familiares ou existenciais. Por exemplo, neste link você pode aprender o que o formato dos seus glúteos tem a dizer sobre a sua capacidade de tomar decisões sozinho(a) e de “não depender de ninguém”, por exemplo; Ou ainda como a celulite resulta do acúmulo de emoções como raiva e autopunição.

Após acessar esse link, tente encontrar artigos científicos demonstrando que esse conteúdo faz sentido. Não há evidência entre a comunidade científica de que a “leitura” do corpo funcione desta forma. No livro “A linguagem secreta do corpo”, de Anna Guglielmi, encontra-se outro exemplo (dentre vários no livro) de suposição baseada na aparência de partes do corpo que não possui fundamentação científica: “Barba e bigode espessos indicam que a pessoa é mais inclinada à atividade física; que é robusta, prática e pouco interessada na atividade mental”. Talvez o bigode de Friedrich Nietzsche seja um bom exemplo contrário (principalmente sobre a parte de interesse na atividade mental) que sirva para ilustrar que esta forma de análise de personalidade tem algo de incorreto.

É preciso ler com cautela e questionar a veracidade do que está escrito. Se você prestar atenção, verá que estas análises corporais apenas parecem fazer sentido, pois existe uma grande quantidade de exceções. Em outros casos, as afirmações são tão vagas e generalizadas que qualquer pessoa poderia achar que fazem sentido. Por exemplo: “Pessoas do Signo de Leão são egocêntricas”. Obviamente existem pessoas egocêntricas com todo tipo de signo, mas as pessoas perpetuam esse conhecimento de que os signos apresentam características específicas de personalidade. O que leva ao erro de interpretação do comportamento humano.

Voltando à linguagem corporal, será que tudo que se refere a este tema é fruto da imaginação e não tem absolutamente nada de útil? Não é bem assim. De fato, existe uma análise científica da linguagem corporal que obteve resultados satisfatórios (o suficiente para serem utilizados por agências policiais como o FBI em interrogatórios) no campo da inferência sobre estados emocionais. Porém o embasamento teórico se estrutura principalmente em fisiologia humana, o que é uma base das quais as fontes acima citadas carecem. Uma forma eficiente de analisar a linguagem corporal humana é observando sinais fisiológicos de emoções. Como por exemplo, ao sentirmos medo, no nosso corpo ocorrerá uma secreção de hormônios glicocorticóides, como a noradrenalina e cortisol. Estas substâncias irão causar alterações em diversos sistemas, como aumentar nossa frequência cardio-respiratória, dilatar nossas pupilas, constringir nossos vasos sanguíneos periféricos, dilatar nossas artérias situadas nos grandes músculos como os das coxas, além de dificultar a atividade da fala e do raciocínio. Estas modificações fisiológicas foram selecionadas evolutivamente e estão presentes em todos os grupos humanos. É por isso que o medo é uma das emoções classificadas como universais, o que significa que todos os humanos possuem a capacidade de sentir medo codificada em seus genes (desconsiderando mutações e outras síndromes que causem alteração cromossômica, é claro, além de casos extremos como a psicopatia. Mas isso é assunto para um outro texto). Desta forma, é útil recorrer ao conhecimento da fisiologia para reconhecer os efeitos dos estados emocionais, porque desta forma podemos tirar conclusões mais confiáveis. A constrição dos vasos periféricos poderá causar um tremor nas mãos e pés, ou ainda uma palidez no rosto. A alteração cardiorrespiratoria mudará a movimentação da caixa torácica, e além disso também poderá ocorrer sudorese (que também é um efeito causado pelos hormônios glicocorticoides). Estes e outros sinais poderão ser usados para chegar à conclusão de que alguém está sentindo medo. Se você quer aprender melhor a como reconhecer emoções nas outras pessoas, leia o livro “A linguagem das emoções”, escrito pelo psicólogo e pesquisador Paul Ekman.

E para ilustrar a eficiência da abordagem científica na leitura de linguagem corporal, aqui está um artigo que mostra uma análise feita com um réu acusado de homicídio depondo no tribunal. No experimento, foram identificados sinais de mentira no depoimento, e estes sinais são discutidos no artigo.